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Ricardo Armas, Critical FlyTech: engenharia aeroespacial portuguesa com ambição global

Com mais de duas décadas dedicadas ao espaço e à aviação, Ricardo Armas agora lidera a Critical FlyTech, uma joint venture entre a Critical Software e a Airbus. À frente de uma equipa altamente especializada de 120 pessoas, a sua ambição é clara: posicionar Coimbra — e Portugal — no núcleo dos sistemas aeronáuticos mais estratégicos do mundo.

Armas acredita que a força organizacional vem da diversidade de pensamento e da autonomia da equipa. Desde capacidades de engenharia avançada até ao crescente papel da inteligência artificial, ele vê uma “oportunidade histórica e única” para Portugal afirmar-se na área aeroespacial.

De imagens de satélite a sistemas a bordo

Nascido e crescido em Coimbra, Armas começou a sua carreira no antigo Instituto Geográfico Português em Lisboa, trabalhando em modelagem espacial e extração de dados de imagens de satélite — uma área de nicho em Portugal há mais de 20 anos.

Naquela altura, Portugal tinha recentemente aderido à Agência Espacial Europeia, desencadeando um impulso não apenas na utilização de dados de satélite na Terra, mas também no desenvolvimento de componentes de satélite a bordo. Essa dupla perspetiva — terra e espaço — moldaria a sua carreira.

A sua passagem para a Critical Software em 2005 ocorreu num momento em que a empresa precisava precisamente dessa expertise. Ele voltou a Coimbra e construiu uma equipa focada em projetos de dados de satélite. Logo depois, expandiu-se para a gestão de software que opera em satélites e aeronaves, aproveitando as semelhanças tecnológicas entre os dois domínios.

Um caminho de uma década para a Airbus

Cerca de dez anos depois, Armas passou para o desenvolvimento de negócios, fortalecendo relações estratégicas tanto nos setores espacial quanto da aviação. Foi então que a colaboração com a Airbus se aprofundou.

Critical Software já trabalhava com a Airbus em programas relacionados com o espaço. A aviação seguiu naturalmente. O objetivo era participar nos programas mais tecnologicamente exigentes e estrategicamente relevantes — aqueles que moldam indústrias inteiras.

A criação da Critical FlyTech não foi o resultado de uma busca súbita por um parceiro, mas sim uma questão de timing. A Airbus, líder global em aviação comercial, opera em longos ciclos de desenvolvimento regidos por rigorosos padrões de segurança e certificação. Ao mesmo tempo, a crescente complexidade global aumentou dramaticamente a necessidade de software avançado — desde serviços para passageiros e sistemas de navegação até comunicações aeronave-solo.

A Airbus reconheceu na Critical Software a agilidade e a capacidade de engenharia necessárias para acelerar essa transformação. A joint venture permite o desenvolvimento interno de produtos e serviços estratégicos sem depender de externalização — um movimento alinhado com o crescente valor estratégico do software na aeroespacial e defesa.

Agilidade, autonomia e ambição

O que diferencia a Critical FlyTech é a sua velocidade em reunir equipas especializadas e adaptar-se a novos processos e exigências tecnológicas. Numa indústria muitas vezes definida por ciclos longos e estruturas rígidas, a agilidade é uma vantagem competitiva.

Como líder, Armas diz que o seu estilo evoluiu através da experiência — aprendendo igualmente com sucessos e erros. Ser gerido por outros ajudou-o a aprimorar a sua própria abordagem. Ele enfatiza a importância de ter uma visão orientadora e investir no desenvolvimento contínuo da liderança.

Para Portugal, ele acredita que a oportunidade é sem precedentes. A aeroespacial já não é uma indústria distante reservada para economias maiores. Com o talento certo, parcerias estratégicas e foco tecnológico — especialmente em sistemas impulsionados por IA — Coimbra pode muito bem tornar-se um nó inesperado, mas credível, na cadeia de valor aeroespacial global.