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Sound Particles Entra no Setor de Defesa com Som 3D Potenciado por IA

A empresa de deeptech, sediada em Leiria, por trás da tecnologia de som 3D utilizada em filmes como Dune, Mission: Impossible, Oppenheimer, Indiana Jones e Star Wars, está a expandir-se para o setor de defesa — e já tem projetos piloto em andamento.

Fundada e liderada por Nuno Fonseca, a Sound Particles construiu a sua reputação no cinema, séries de TV como Game of Thrones e Stranger Things, e videojogos como Fortnite. A empresa também colaborou com artistas vencedores de Grammys, incluindo Justin Gray e Peter Gabriel. Agora, está a aplicar as suas capacidades de simulação de som impulsionadas por IA em áreas como a detecção de drones e sistemas de sonar submarinos.

De acordo com o CEO, a entrada no setor de defesa surgiu após perceber que muitos desafios do setor poderiam ser abordados através da inteligência artificial aplicada ao som. A força central da empresa reside na geração de volumes massivos de dados áudio sintéticos altamente realistas — um requisito crítico para o treinamento de sistemas de IA.

Deteção de drones e aplicações submarinas

Na deteção de drones, sistemas tradicionais como radares e câmaras enfrentam limitações, particularmente com objetos pequenos ou em condições de noite. Usando microfones 3D combinados com IA, os drones podem ser detetados e localizados através do som. O gargalo, no entanto, é a necessidade de milhares de horas de dados áudio precisamente anotados.

A tecnologia da Sound Particles pode simular vastas quantidades de sons de drones e ambientais, permitindo o treinamento de redes neurais complexas e melhorando significativamente a precisão da deteção.

Outra área-chave é a defesa submarina. Em ambientes marinhos, o som é o principal mecanismo de deteção, uma vez que radares e câmaras são ineficazes. A empresa acredita que a sua especialização em som 3D e IA pode trazer avanços disruptivos para sistemas baseados em sonar.

Vários programas piloto já estão em andamento, e a empresa apresentou recentemente a sua tecnologia num evento da NATO no estrangeiro. Embora parceiros específicos permaneçam não divulgados devido a NDAs, Fonseca confirma o envolvimento com os principais intervenientes do setor público e privado de defesa em Portugal.

Rodada de investimento em curso

Para apoiar esta nova fase, a Sound Particles está a preparar uma nova rodada de financiamento e visa concluí-la nas próximas semanas. Como empresa de deeptech a operar em áreas complexas como sistemas submarinos, as necessidades de investimento poderiam atingir vários milhões de euros. O montante-alvo não foi publicamente divulgado.

A expansão ocorre em meio a um foco europeu crescente nas capacidades de defesa, particularmente em tecnologias de drones e anti-drones. A Comissão Europeia propôs 400 milhões de euros para fortalecer as capacidades relacionadas com drones, enquanto programas de financiamento de defesa mais abrangentes, como o SAFE, alocam 150 mil milhões de euros entre os Estados membros, com Portugal assegurando 5,8 mil milhões de euros.

Crescimento da equipe e desafios operacionais

A Sound Particles emprega atualmente 20 pessoas, incluindo quatro PhDs, e recentemente fortaleceu a sua especialização em física computacional e desenvolvimento de sistemas críticos.

Ao mesmo tempo, a empresa continua a lidar com as consequências da Tempestade Kristin, que impactou severamente a infraestrutura no centro de Portugal. Para além das interrupções operacionais, Fonseca destaca o custo humano, com funcionários a enfrentarem danos em propriedades e apagões prolongados. A empresa permitiu flexibilidade para que a equipe reorganizasse as suas vidas pessoais, reconhecendo o impacto de curto prazo na produtividade.

De design de som em Hollywood a sistemas de IA de grau de defesa, a Sound Particles está a posicionar-se na interseção da simulação áudio, inteligência artificial e tecnologia estratégica — desta vez, muito além da tela do cinema.