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Antonio Filosa ganha em um ano o que um trabalhador ganha em 82

O debate sobre o salário dos executivos na Stellantis não terminou com a saída de Carlos Tavares. Se acaso, simplesmente mudou de nome.

Tavares — que liderou a PSA desde 2014 e supervisionou a fusão de 2021 entre a PSA e a FCA que criou a Stellantis — foi frequentemente criticado pelo seu pacote de compensação, incluindo pelo Presidente Francês Emmanuel Macron. Na altura, a atenção focou na dimensão dos seus bónus, embora a maior parte da sua remuneração estivesse ligada ao desempenho.

Sob a liderança de Tavares, a Stellantis apresentou lucros de €13,4 bilhões em 2021, €16,8 bilhões em 2022 e €18,6 bilhões em 2023. Nesse ano recorde, recebeu €36,5 milhões — cerca de 71,5% ligados a incentivos de desempenho, incluindo metas financeiras e reduções nas emissões médias de CO₂ na Europa.

Mesmo em 2024, seu último ano à frente — quando os lucros caíram acentuadamente, mas permaneceram positivos em €5,5 bilhões — ele ganhou €23 milhões.

Um contexto diferente, mesma controvérsia

Antonio Filosa assumiu como CEO em junho de 2025. No seu primeiro ano, recebeu €5,4 milhões. O pacote incluía um salário base de €1,4 milhão, €374.000 em benefícios e €1,5 milhão relacionado ao seu papel anterior como COO da divisão norte-americana da Stellantis.

Ao contrário do seu antecessor, Filosa não recebeu bónus de desempenho, uma vez que o grupo reportou perdas de €22,5 bilhões.

Ainda assim, a crítica seguiu rapidamente. O sindicato United Auto Workers apontou que mesmo sem bónus, a compensação anual de Filosa equivale ao que um empregado médio da Stellantis nos Estados Unidos ganharia em cerca de 82 anos de trabalho. Um valor que, falando de forma direta, assume que alguém poderia permanecer na folha de pagamento até quase chegar aos 100 anos.

A questão mais ampla

O salário dos CEOs tem sido defendido como um reflexo da responsabilidade, pressão e risco — os executivos de topo podem ganhar milhões, mas também podem ser despedidos da noite para o dia. Quando os resultados são bons, são aclamados como mestres estratégicos. Quando os lucros caem ou os dividendos diminuem, a admiração evapora tão rapidamente.

O contraste na Stellantis destaca uma tensão recorrente em corporações globais: a compensação dos executivos permanece frequentemente alta independentemente da volatilidade de curto prazo, enquanto o pagamento dos trabalhadores reflete estabilidade a longo prazo em vez de picos de desempenho.

Seja justificada por estruturas de governança, obrigações contratuais ou competição de mercado por talentos de liderança, a percepção continua a ser poderosa — especialmente em um ano marcado por grandes perdas.

E na ótica corporativa, a percepção pode, por vezes, pesar quase tanto quanto o balanço patrimonial.